Só esse governo para proporcionar a uma mulher negra e pobre a possibilidade de escolher o seu curso superior

Só esse governo para proporcionar a uma mulher negra e pobre a possibilidade de escolher o seu curso superior

"Hoje, além de analista de relações internacionais, sou especialista em logística"Raphaela Gonçalves Evangelista - Niterói/Rio de Janeiro

Depoimento enviado em 11/10/2014

Meu nome é Raphaela, tenho 29 anos e além de mulher sou negra. As coisas nunca foram muito fáceis para mim nem para nenhum dos membros da minha família. Sou a terceira filha de quatro irmãos, tenho duas irmãs mais velhas e um irmão mais novo. Em minha família a educação sempre foi um fator importante. Meu pai é mineiro e, ao vir para o Rio de Janeiro, se casou com minha mãe que já tinha duas filhas pequenas. Meu pai, com muito esforço, fez a faculdade de administração através do Fies e trabalhou por muitos anos, porém, por ter tido descolamento de retina, teve que se aposentar quando eu ainda era criança.

Eu e todos os meus irmãos estudamos em escola pública. Quando eu era adolescente, lembro de ver uma das minhas irmãs estudando dias e noites até passar no vestibular para a universidade federal fluminense. Nesta época, não haviam programas sociais e, para ingressar na universidade pública ela teve que ser uma heroína. Mesmo jovem eu comecei a criticar este tipo de coisa, pois se para ela passar no vestibular ela teve que abrir mão de sua vida durante um longo tempo, para outras pessoas que eu conhecia era natural, elas estudavam em boas escolas, tinham boas bases, faziam um cursinho no máximo e pronto, lá estavam elas em seu lugar predestinado: a universidade pública. Minha irmã mais velha conseguiu entrar na universidade particular após começar a trabalhar na faculdade e ganhar uma bolsa de estudos, assim, o seu salário era muito baixo, mas ao menos ela estudava de “graça”.

Quando estava no segundo grau eu não imaginava o quão difícil era adentrar no ensino superior, nesta época ele ainda era feito apenas para um grupo seleto de pessoas, quem desafiava essa lógica quando era aprovado muitas vezes tinha que abandonar o curso pois não possuía dinheiro para custear o material didático. Quando conclui o segundo grau, estudei em casa durante um ano, tentei vários vestibulares e mesmo assim não consegui. Eu chorei muitas vezes pois a minha vontade de prosseguir estudando era enorme, não entendia como não conseguia, eu sempre fui uma das melhores alunas de todas as classes e meus pais se viam desesperados diante de tal impotência. Neste período, me lembro que a pouco tempo haviam sido lançados os programas de inclusão dos grupos marginalizados da sociedade ao ensino superior, como as cotas e o ProUni. Para me ajudar a estudar, meus pais panfletaram nas ruas para que eu pudesse fazer o pré vestibular, mas ao chegar lá o que eu encontrei eram candidatos bem melhor preparados pois vinham de escolas particulares. Estudei muito e também me escrevi no Enem. Fiz a prova do vestibular e também me escrevi no ProUni, uma vez que era oriunda de escola pública. Passei no ProUni e obtive bolsa total para estudar Relações Internacionais na Universidade Estácio de Sá em Copacabana (eu moro em Niterói), ok, mas isto não foi empecilho, foi difícil, muito difícil, mas não impossível!

Para minha surpresa, no dia em que fiz minha inscrição para cursar relações internacionais me ligaram da Uerj para que eu me matriculasse pois havia sido aprovada. Inicialmente fiz a inscrição em ambas, pois foi uma surpresa e não sabia por qual optar, porém, não achei justo ocupar a vaga de outro aluno que poderia estar ali na faculdade, realizando um sonho como eu e optei por cancelar a matricula no curso de história. Depois de um tempo chegou uma carta do ministério da educação solicitando a opção de curso, mas eu já havia conscientemente feito a escolha e me senti feliz por abrir mão da minha vaga, afinal de contas, era errado me beneficiar das duas e sabia que o correto era ajudar o governo a proporcionar a entrada de mais um aluno no ensino superior. Quando, em outro governo, uma mulher negra e pobre poderia escolher o curso ao qual fazer? Na faculdade de Relações Internacionais ainda tive barreiras, pois se TODOS os meus colegas haviam estudado inglês a vida inteira, viajado para o exterior e muitos faziam intercâmbio, meu inglês era básico. Meu pai se esforçou muito para pagar um curso na cultura inglesa e, como em Niterói sempre foi muito caro, eu me deslocava do meu estágio como jovem aprendiz no centro do Rio de Janeiro para São Gonçalo, onde o curso era mais barato. Meu pai me manteve até quando pode, depois disso, para que eu não deixasse o curso de inglês, eu trabalhei como diarista na casa da minha irmã mais velha, deste modo ela me dava o dinheiro que eu usava integralmente para pagar meu inglês.
Assim aprendi inglês, me formei em relações internacionais e, meu irmão mais novo. se formou em Direito; ambos pelo ProUni, pois sem o programa meu pai nunca teria condições de arcar com a mensalidade dos cursos, muito menos eu e o meu irmão. No ano após concluir minha faculdade iniciei o MBA em logística empresarial e gestão da cadeia de suprimentos na faculdade federal fluminense. Tenho a certeza de que a minha formação me propiciou um salário com o qual eu pudesse custear a mensalidade.

Hoje, além de analista de relações internacionais, sou especialista em logística. Gostaria de agradecer as políticas inclusivas desse governo, ao esforço dos meus pais que foram e são incansáveis o que, juntamente ao meu esforço, me permitiram conquistar o que tenho. Espero ter forças para poder devolver a sociedade tudo que aprendi e o que ainda irei aprender. Espero também que as políticas de inclusão continuem melhorando a vida das pessoas a cada dia.