O filho do pedreiro e da merendeira virou psicólogo

O filho do pedreiro e da merendeira virou psicólogo

"Não há um projeto político que possa continuar desenvolvendo o Brasil que não seja o projeto de Lula e Dilma"Mayk Diego Gomes da Gloria - Trindade/Goiás

Depoimento enviado em 10/10/2014

Toda vez que assisto a uma propaganda política me vem à memória as lembranças de minha infância pobre aqui em Goiás… Não chegamos à miséria, necessitando fazer pirão de caldo de pequi como acontecera com minha mãe no norte goiano em sua infância, hoje estado do Tocantins. Mas tivemos muitas privações devido à condição financeira que tivemos naquela época.

Sou da geração que era menino na saída do Collor do poder. A constituição foi estabelecida no ano em que nasci, 1988. Era menino que subia em árvores, saía rua afora para pegar manga, goiaba, jabuticaba, e às vezes até sem pedir nas chácaras próximas de casa. Brincava na porta de casa, na rua ainda sem asfalto, arrancava a cabeça do dedo chutando o chão e não a bola, comia com a mão suja – apesar das broncas da minha mãe – e relutava pra ir tomar banho, pois queria aproveitar ao máximo os momentos de brincadeiras, que ajudavam a esquecer as dificuldades enfrentadas em casa.

Nesta mesma época, morava em uma barraca de lona preta e bambu com cobertura de latão (um calor do cão), nos fundos da casa de minha avó paterna, a vó Valdete. Lá tivemos muitos momentos felizes, mas também de muita luta. Meu pai pedreiro, desempregado – hoje entendo que o país passava por crises econômicas na época – e desesperado por não ter condições de sustentar sua família: uma condição extremamente humilhante para um homem em nossa sociedade machista. Minha mãe, merendeira, servidora pública, sustentava a casa com o pouco que ganhava. Lembro que ansiava a possibilidade de poder tomar iogurte, uma vez que as propagandas da Danoni eram constantes na televisão, mas não tínhamos dinheiro pra isso. Mal dava para comprar arroz e feijão; farinha era um item essencial em casa, dava sustância e enchia a barriga quando não se tinha nada para lanchar, misturada com açúcar e água.

Mudamos de lá em 1996 pois, em sociedade com uma colega de trabalho minha, conseguimos comprar um lote e, com nosso esforço eu almoçava e ia após a escola ajudar meu pai, e minha mãe ia após o trabalho no turno vespertino, e assim conseguimos construir um barracão de dois cômodos e Um banheiro, sem piso, sem reboco, com tijolos amostra, mas era nosso cantinho.

Pouco tempo depois, meu pai teve sérios problemas renais e, quando buscávamos o serviço público de saúde, o tratamento era apenas paliativo, para amenizar a dor das cólicas que sentia. Parou de trabalhar, e as dificuldades foram aumentando. As dívidas acumulando, e a comida só não chegou ao fim porque tivemos amigos que traziam o pouco que podiam dividir conosco, e ainda hoje sabemos que podemos contar com estes amigos, e com novos que foram surgindo ao longo da nossa caminhada. Nesta época, fui pra rua vender picolé. O pouco dinheiro que fazia no dia, passava no mercadinho e comprava a “mistura” para acrescentar no arroz e feijão no jantar.
O fato de minha mãe ser servidora pública do estado de Goiás ajudou muito, pois apesar de ter união estável desde 1988, ela e meu pai nunca formalizaram, mas ela conseguiu inserir meu pai no IPASGO e, após isso, o tratamento para a patologia renal ficou mais ágil, depois de muito sofrimento e necessidade.

Ainda assim continuávamos a passar por dificuldades, e o emprego para o meu pai continuava faltando. Ora tinha construção, ora não. Ora havia dinheiro, ora não. Ficávamos sem energia por falta de pagamento, sem água. Ligações para os parentes do Tocantins? Só a cobrar no orelhão. Mas minha mãe sempre falava: “meu filho estuda; a mãe não tem dinheiro pra deixar, e a única herança que posso te dar e te apoiar nos estudos”. Estas palavras eram lançadas como mantra, e acatadas não apenas como conselho, mas como gesto de carinho e cuidado. Gesto e demonstração de amor. Não queria passar pelas mesmas dificuldades passadas pelos meus pais, e por nós na minha infância quando me tornasse adulto.

Fui alfabetizado em escola pública, a mesma em que minha mãe trabalhava, assim era mais fácil para ela acompanhar meu desempenho e puxar a orelha quando necessário. Meu ensino fundamental e médio também foram em escolas públicas; reprovei na 6ª série e foi um dos momentos mais difíceis por ver a decepção escorrerem pelos olhos de minha mãe. Dali em diante, prometi a mim mesmo que faria o máximo de esforço para que aquilo não acontecesse.

No término do meu ensino médio, já no terceiro ano, começou a me preocupar o fato do que eu iria fazer da minha vida a partir daquele ano. Começavam as cobranças sociais em relação futuro profissional e a necessidade de sucesso no vestibular. Estávamos em 2005 e, na escola, tiramos uma aula inteira para preencher a ficha de inscrição para o Enem, exame que, se não me engano, havia propiciado a oportunidade de bolsas para o ensino superior naquele ano pela primeira vez. Eu sabia que minhas chances de entrar em uma universidade pública eram pequenas, e de pagar uma particular, quase nulas.

Em dezembro chegou o resultado por uma carta e, a minha média tinha sido alta. Dava para concorrer a vários cursos pelo ProUni, dos quais optei por um que me encantava e me encanta até hoje. No dia 06 janeiro de 2006, estava na escola – pois havia ocorrido greve no ano anterior e as aulas terminariam neste mesmo dia – quando começaram a dizer que o resultado de seleção do ProUni havia sido divulgado. Apressei-me para saber o resultado com meu número de inscrição em mãos, com o coração quase saindo pela boca de tamanha ansiedade. Estava lá: Psicologia – Universidade Paulista.

A primeira coisa que fiz foi ligar pra contar a novidade para minha mãe: “mãe? Passei no ProUni!” Foi nítida a alegria dela, pois veria, depois de tanta dificuldade, o filho ingressar na faculdade. Depois a vizinha me contou que chegou em casa, minha mãe estava ajoelhada com o rodo na mão, agradecendo a Deus por esta vitória. Meu pai ficou orgulhoso, saindo espalhando a novidade para os vizinhos e amigos. Depois, com sua simplicidade, veio me perguntar o que mesmo que fazia um psicólogo.

Os cinco anos de faculdade não foram fáceis. Pois mesmo sendo bolsista do ProUni, e com muito orgulho, tive que trabalhar em Call Center para ajudar nas despesas em casa, e com os estudos: apostilas, livros, xérox, trabalhos, etc., estudando pela manhã, e trabalhando de tarde e de noite, muitas vezes chegando em casa tarde, e ainda tendo que estudar pela madrugada afora.

Me formei no final de 2010, mas a colação oficial ocorreu apenas no dia 25 de janeiro de 2011, uma data que nunca irei esquecer, pela magnitude que esta tem e sempre terá em minha vida e na vida de meu pai e minha mãe. Pois naquele dia vi minha mãe quase não se conter de alegria e orgulho do único filho. Meu pai chorava como uma criança, de soluçar e eu, ao longe, conseguir ouvir, e ficar emocionado da alegria sentida pelos meus pais naquele momento.

Tenho plena convicção de que as minhas conquistas têm ampla influência de minha mãe, mulher guerreira, sábia apesar de só ter ensino fundamental, astuta, lutadora, carinhosa e amável, com palavras doces e com o cinto na mão nos momentos certos. De Meu pai, homem com mãos calejadas por sua colher de pedreiro que, me ensinou o caminho da honestidade, do caráter, do crescimento sem necessitar pisar em outras para alcançar o sucesso. E de mim mesmo, que acreditei que conseguiria ultrapassar as barreiras impostas pelas dificuldades.

Ela viu o filho de uma merendeira muito honrada e de um pedreiro esforçado começar seus estudos no mestrado em Psicologia de uma universidade pública, provando que alunos do ProUni são capacitados e competentes, faltando-lhes apenas oportunidades.

Há muito que fazer. Ledo engano os que pensam que não temos senso crítico em relação a esse governo, mas não há um projeto político que possa continuar desenvolvendo o Brasil que não seja o projeto de Lula e Dilma.